segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

UM DIA DENTRO DE MIM

Hoje falo sobre as doenças degenerativas.

Falar sobre as diferentes fases da progressão ou regressão física, pela qual meu corpo está passando, não permite excluir a mesma fase do meu "eu interior". Há 10 anos, eu já sabia o prognóstico, do mais suave ao mais terrível - a imobilidade.

É difícil explicar como é - deixar de fazer - de repente a sua mão não tem mais aquele movimento, o seu braço não levanta para pentear seu cabelo e você se olha no espelho, começa a ver um outro corpo se formando, perdendo suas curvas, suas expressões, seu brilho.

Imobilizar-se é perder alguns direitos, é depender, é precisar, é sonhar e aceitar.

Esses dias li o texto "Noite" do historiador Tony Judt publicado na Folha de SP, que descreveu exatamente o sentimento vivido por ele diariamente, um portador de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), meio parecido com o que eu tenho (AME), numa forma mais agressiva.

Ele relatou, densamente, a solidão de estar, de existir, pulsar intensamente dentro da imobilidade de seu corpo. E por que falar sobre isso? Simplesmente porque é assim que venho vivendo, e enquanto posso é preciso mostrar, quem sabe ajudar alguém que já não tenha a mesma força para falar, como eu.

Sem a habilidade e a coragem de Tony, relato "UM DIA DENTRO DE MIM"...

6:00... O efeito do "Rivotril" começa a passar, posso ouvir meu filho Bruno saindo para o trabalho. Há um cansaço em todo o corpo, os braços e mãos doem muito. Peço ao Caio para mudar a posição do braço mais uma vez (essa noite foram só 3 vezes), volto a dormir até 7, 7:30, é o melhor horário, é como se na manhã finalmente eu me entregasse ao corpo.


7:30... Posso sentir o Caio vindo me levantar, abro lentamente os olhos e o primeiro pensamento é de agradecimento por ter conseguido passar por mais uma noite. Me entrego como uma marionete ao manuseio adaptado do meu filho, e ainda "grógue" vou me encaixando em meu corpo e em minha mente. Este é o momento do alívio, levantar é sair um pouco da imobilidade absoluta. Daí em diante fico 18 horas na cadeira - se pudesse não sairia dela.

8:30... Depois de 30 minutos para me arrumar, ainda sinto os efeitos da "droga", meus olhos ainda entreabertos demoram a me conectar com o mundo.

9:00... Chego ao escritório. Depois do manuseio desagradável de entrar e sair do carro, somente fico pronta após aquela "ajeitada" de mãos e pernas, que a Célia (minha secretária-cuidadora) me faz, aproveitando para me passar um batom, um lápis nos olhos e uma escova no cabelo - afinal, meu dia finalmente acaba de começar...

13:00... No horário do almoço fico direto a maioria dos dias, só quando há uma "situação de emergência" vou para casa. Ainda assim, além do Caio é necessário a ajuda de mais alguém para eu ir no banheiro.

18:00... Agitação, correria atrás da grana, trabalhar com imóveis, com venda, me transporta a coisas que consigo fazer "apesar da cadeira". Conheço gente de todo tipo, investidores, pessoas comuns e algumas especialmente importantes para mim... Enfim, um mundo igual ao de todos, com a diferença que cada conquista se transforma num evento especial.

19:00... À noite as coisas são mais complexas. Durante as férias, aproveitei bastante a presença do Fábio, que como eu, não tem muita opção. As pessoas saem para suas vidas, e sobra a TV e a net. Esse ano começo a passar por mais uma adaptação, já que não consigo usar o computador, e ficarei quase toda noite na inutilidade. Trabalhando minha mente para superar o que tiver de passar.

24:30... O corpo pede um descanso, deitar parece tentador e maravilhoso. Mas é essa hora que começa o mais difícil: conseguir dormir, sem mexer parte alguma do corpo, como se estivesse trancado dentro de um caixote, olhando para o teto. Nesse momento entra o Rivotril, que me ajuda a dormir em pausas maiores, sem o qual me lembro de passar noites inteiras, chorando, com crises de pânico, "vontade de sair correndo", de pular, de me jogar da cama, por fim, me rendi a essa droga para dormir.

O incômodo inicial de ficar deitada, vai se misturando com os agradecimentos, com as orações e daí a pouco um apagão. Enfim um descanso. E lá pela madrugada, algumas noites acordo poucas vezes e em outras quase não durmo, o remédio não consegue diminuir a dor física que meu próprio corpo causa com seu peso em minhas costas... São poucos os músculos intactos, a falta de comunicação pelos neuros-transmissores impede o movimento e isso causa a atrofia, e atrofiando eles não se movimentam.

Um dia a imobilidade completa chegará. Talvez eu não tenha mais os mesmos amigos, talvez eu não consiga mais falar com eles, mas até lá expressarei todos os meus sentimentos, que é o que venho fazendo neste blog.
Este ano é um ano de metas que realizarei com a ajuda dos meus filhos, dos meus amigos e da minha família. Metas no meu trabalho, para ajudar algumas pessoas, para escrever mais. Ir ao médico que marquei desde o ano passado e outras metas não menos importantes que nos darão muita alegria de viver. Uma delas já foi realizada - fomos ao show da Beyoncé dia 6/02/2010 - mas isso é uma outra história...

Para quem quiser ler o relato completo de Tony Judt, é triste e doloroso, tô avisando, mas real e necessário para cuidadores e pessoas que convivem com portadores desse tipo de síndrome, segue o link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1001201006.htm (acesso somente para assinantes do Uol ou da Folha, quem quiser é só me pedir que eu mando).

Só posso acreditar que somos essa alma / mente, que fica dentro desse corpo, tipo Avatar e vai vivenciando suas experiências, cada uma em um diferente corpo, quem sabe espalhados por esse universo cheio de enigmas...
Olho para a escuridão e sinto medo... Na solidão da noite, meus pensamentos me levam a essa viagem interior. A descobrir que o mundo inteiro está dentro de mim e aceitar que Deus está presente neste universo, me acalma, me faz lembrar que só Ele me basta.
Mas como não sou somente alma, sinto falta do abraçar, do tocar em mim mesma, no outro, do sentir o afago da minha família, dos meus amigos, de poder dar um passeio com minha mãe como eu fazia antes ou de simplesmente pegar o carro e sair sem destino, só para ouvir um novo CD e apreciar um dia ensolarado e maravilhoso.
Falta a privacidade, falta chorar na frente dos outros, mostrar esse outro lado "meio dark", quase obscuro...
Depois de tudo, me permito olhar para o futuro e fantasiar com Deus as aventuras que Ele ainda vai me dar.

Beijos e até breve

18 comentários:

Patricia disse...

Querida Marli,

O que dizer, além de tudo que estou sentindo agora??
Que te respeito, que te admiro, que me contento e me entristeço junto com voce e que acima de tudo TE AMO!!
Grande beijo.

Jairo disse...

Esse vc "pegou pesado". Não sei se serve como algum alento, mas vários momentos que vivo, várias coisas que faço, compartilho com vcs em pensamento... beijos, flor mais iluminada...

Silvia Dutra/ Sinhá Clementina disse...

Marli querida, fiquei emocionada com seu relato. Não sei o que te dizer, além de que te admiro muito e admiro muito também os seus filhos e sua família, tão unida e amorosa, enfrentando com dignidade essa situação que a doença trouxe para você e o Fábio.
Um beijo e todo meu carinho, mesmo de longe.

Anônimo disse...

Marli se eu disser que você é guerreira, vou chover no molhado. Que sua família é linda, ídem. Me emocionei desde o início e só posso concordar que é uma pessoa linda e iluminada. Obrigada. Fabiana

Lunagrim disse...

Marli,
hoje, segunda feira, ví seu depoimento na "Grobo" depois da novela e fiquei emocionada (de novo).
Seu comentário que eu lí e relí várias vezes, me deixou sem ter o que dizer. A única coisa que posso falar é que te admiro muito, me entristeço com sua tristeza, aprendo com você a ser mais atenta a beleza da vida, presto atenção para choramingar menos por qualquer frustração, e principalmente através de sua lucidez e percepção, das suas palavras tão fortes e corajosas, eu descobrí que Deus é a fortaleza maior de cada um de nós e sem isso nenhum de nós, seja qual for nossos problemas, consegue continuar inteiro.
beijos e que a fé tão intensa que você tem a ajude em todos os dias da sua vida.
Marcia

Rogério disse...

Marli, você e o Fábio têm o poder de me iluminar a alma. Vê-los ontem na TV me encheu de orgulho e ternura. Só fiquei meio decepcionado porque achei que você poderia ter ido com o cabelo "jaguatirica"(kkk). Seu relato, intenso, como sempre demonstra uma inquietante consciência, além de um delicioso paradoxo: você fala em imobilidade, mas falando alça voo. Sei que não dá para ser uma Poliana full time, e o grande barato é aquilo que você falou sobre abrir os olhos e sentir-se grata por mais um dia. Otimismo, perseverança e, às vezes, uma baqueada, por que não? Essa é, ou deveria ser, a essência do ser humano. Um grande beijo, querida.

Lunagrim disse...

A TODOS QUE ACOMPANHAM O BLOG DA MARLI, PARA VER O DEPOIMENTO DELA NA NOVELA É SO CLICAR EM:

Viver a Vida 22/02/2010 -
Capitulo 138 - Parte 7

NO YOUTUBE E IR PRO FINALZINHO DO CAPÍTULO E VER DE NOVO O DEPOIMENTO TÃO INTENSO E TÃO BELO!

Ana Lucia disse...

Marli
Te conheci dando depoimento no final da novela.Hoje,lendo a Família Cristã de Janeiro,li sua reportagem.Veja só,coincidência???
Acredito que não.Você e sua família são,com toda certeza,aqueles recadinhos que DEUS nos dá entre linhas.
Às vezes,acordamos,passamos o dia todo e vamos dormir sem nos darmos conta da grandeza de estarmos vivos
de agradecermos pequenas e grandes coisas do dia.De acharmos que somos maiorais diante das adversidades da vida.
Perdi,em março de 2008,um irmão de
infarto aos 55 anos.Ele tinha o diagnostico de ELA,porém sem os agravantes ate então.
"Existem momentos capazes de marcar nossas vidas para sempre."
Hoje o meu foi marcado com seu relato.
Um grande abraço carinhoso
Ana Lucia

Gisele Regina de Azevedo disse...

Que mulher porreta!
Que família porreta!
Beijos no coração de vocês,

Marli Cassiano disse...

Oi Gisele,

Ainda bem que somos porretas. Acho que Deus nos deu essa capacidade a mais para que nos momentos de necessidade a gente possa lutar e amar a vida incondicionalmente.

Beijos e obrigado pelo carinho!

Marli Cassiano disse...

Oi Ana Lucia,

A vida nos traz imprevistos que modificam todo nosso caminho, nossa idéia original. Mas com isso, sei que Deus está nos direcionando exatamente para onde devemos ir. No começo meu diagnóstico era ELA, depois virou AME, independente deles, acho que seu irmão e todos nós somos escolhidos. De repente, para mudar, emocionar, levar um pouco de fé e esperança para todos os que nos rodeiam, para qualquer tipo de dificuldade.
Agradeço a Deus a oportunidade que Ele me dá diariamente para continuar seguindo esse caminho que me foi designado.

Beijos a você e sua familia.

Marli Cassiano disse...

Oi Rogério,

Você com suas palavras elegantes e carinhosas me faz sentir as forças aumentando dentro de mim e me levando a ter a coragem necessária para enfrentar o dia-a-dia.
E a jaguatirica já estava enjaulada há muito tempo, depois dos 50, cada dia é uma cor de cabelo. Espero que possamos nos ver brevemente.

Beijos

Marli Cassiano disse...

Oi Márcia,

Nem preciso dizer que você é da família, né? Então, sempre tenho um exagero carinhoso nos comentários, acrescentando pensamentos maravilhosos que complementam os meus. Agora estou mais chique, né não?
Precisamos marcar uma caipirinha, pois as minhas asinhas estão crescendo.

Beijos

Marli Cassiano disse...

Oi Fabiana,

Obrigada pelo carinho, pela minha família que também acho linda rsrs
Mas você precisa escrever mais, tenho muitas Fabianas maravilhosas em minha vida.

Beijos

Marli Cassiano disse...

Oi Silvia Dutra,

Que bom receber um carinho de tão longe, parece que a gente é vizinha de varanda. Ultimamente tenho vivido assim, só na emoção, às vezes com uma pitadinha de dor, mas a maioria repleta de força e alegria.

Um beijo grande pra você, pra Sinhá e pra suas famílias.

Marli Cassiano disse...

Querido Jairo,

Apesar da ausência no blog, decidi escrever sobre tudo o que eu passar e principalmente sobre tudo o que sentir. Esse é mais um momento do que estou vivendo. Agora, preciso escrever sobre as coisas boas.

Beijos

Marli Cassiano disse...

Patrícia,

Sem comentários.
A cada dia você preenche mais meu coração.

Beijos

adriana disse...

Marli,seja no vídeo ou no blog, a força de suas palavras me invade e me faz redescobrir o mundo. Vim aqui, depois de um período meio ausente, pra buscar seu endereço. Minha amiga, depois de te ver e se emocionar com o seu relato na TV, quer te conhecer melhor! Espero poder te reencontrar em breve, no novo encontro do Assim! Quero te dar um longo e forte abraço. Beijos, com o meu afeto, pra você e um abraço pra toda a família.