
Já havia lido sobre sequelas das atrofias musculares e nessa semana vivi situações que pessoas do grupo que participo já tinham passado e talvez isso tenha me deixado em pânico. Além da destruição dos neurotransmissores, que provocam a perda muscular e com isso, a perda progressiva dos movimentos, o sistema pulmonar e de deglutição são extremamente afetados.
Então, o povo me vê na cadeira e acha isso o maior problema.
Hoje escrevo um pouco sobre essas consequências imperceptíveis como por exemplo, a dificuldade de falar.
Imagine uma pessoa como eu, qualquer pessoa deixar de falar.
No nosso grupo, AME (Atrofia Muscular Espinhal), declararam que a maior dificuldade enfrentada pelos portadores era perder a comunicação, não conseguir expressar mais suas emoções, além de um olhar.
Na terça-feira, comecei a ficar rouca, achei normal, pois já aconteceu outras vezes. Porém, a rouquidão aumentou e dependendo do meu esforço em tentar sussurrar no trabalho, alguns engasgos rolaram - não tive como deixar de pensar que "a coisa terrível" estava começando.
Como aqui em casa, adotamos o sistema de aprender a lidar na hora, começo neste momento a pesquisar, prevenir crises como essa - lá vamos nós, mais uma vez.
Hoje é sábado, verei um médico na segunda - o bom é que em São José eles não devem saber lidar com a raridade do meu caso e aí a gente se debanda para São Paulo.
Não costumo falar com tanta realidade, mas sei que como eu, existem muitos com essas progressões. Não o suficiente para promover estudos científicos que possam ao menos amenizar as consequências tão devastadoras que elas causam. Também, 1 pessoa em cada 100.000, não faz diferença alguma aos laboratórios.
Faz diferença na vida de uma família inteira. Já que a evolução pode levar anos para chegar ao ponto mais crítico, até lá vários detalhes e adaptações sem nenhum auxílio externo.
O ponto mais crítico para mim vai além da imobilização na cadeira. É aprisionar seus pensamentos, suas vontades, numa cama, tudo entubado e ligado em aparelhos.
Essa semana deu um pânico - ligou o sinal de alerta. Acenderam umas luzinhas no meu coração. Uma vontade de expressar, de dar um oi para todo mundo, de deixar as coisas da forma que eu quero.
E o sentimento interno se repete:
Quantas e tantas vezes deixei de falar, de brigar, de gritar, de dizer simplesmente EU TE AMO.
Quantas vezes fingi que não ouvi, ignorei, deixei de expressar um simples olhar...
Tipo uma deficiência emocional - alto teor de "ego".
Gente, isso tem cura, é só se permitir.
Permita-se negar, aceitar,
Compreender antes de discutir,
Ceder ao invés de competir,
Perguntar sem medo da resposta,
E mais que tudo, além de ouvir, compartilhar...
Quando a gente consegue soltar as emoções, com razão e sensibilidade, verdadeiramente a gente pode amar e dividir incondicionalmente.
Não tô vendendo "auto-ajuda", é só um toque para perguntar: você está falando o que deveria falar, para as pessoas que deveria falar? Está fazendo o que gosta? Está vivendo os seus sonhos, conforme sonhados?
E assim eu continuo indo, esperando minha voz voltar (tenho um super encontro com o povo da Matrix dia 24/10 em SP), esperando também uma esquina nesse meu caminho meio definido, não definitivo. E que esse toque lembre as pessoas de trocar uma idéia, mesmo com aqueles de mais idade, meio sem assunto ou aqueles que você acha que não precisam mais de uma palavra de carinho, eles ainda conseguem sentir...
O tempo não pára... Atropela meus planos, mas não pode calar minhas histórias.
Lembro sempre que eu não sou o meu corpo. Sou somente este ser que vive através dele, nesse momento meio aprisionado, procurando acalmar a alma. Sou essa mente espiritual que aprende pouco a pouco a viver nessa forma, vendo coisas incríveis e maravilhosas acontecendo ao seu redor e que ainda tenta demonstrar essa emoção - mesmo que através de uma única lágrima correndo neste rosto.
Beijos no coração.
Principalmente para aqueles que começaram a percorrer o caminho de volta, isto é, o caminho para dentro de si mesmos...